A poesia de Chico chegou antes dele pra mim. AtĂ© hoje guardo uma fita cassete de Ă¡udio que minha mĂ£e gravou. Ela dizia, na gravaĂ§Ă£o, com uma voz distorcida de equipamento antigo: "Denise, com 3 anos". AĂ, entre pausas (para respirar ou para chamar a atenĂ§Ă£o da mamĂ£e, como: "ManhĂª, tĂ´ de bota!"), eu cantava, com uma voz de bebĂª afinada: "Pai, afasta de mim esse cĂ¡lice... de vinho TANTO de sangue." Naquela Ă©poca, o vinho tinto nĂ£o existia pra mim, por isso eu substituĂa "tinto" por "tanto". E seguia cantando, sem saber que jĂ¡ engrossava o cĂ´ro de fĂ£s de Chico Buarque. Na ingenuidade de meu timbre infantil, dava voz ao hino contra a ditadura. Sempre que ouço Ă fita me emociono. Depois Chico voltou a aparecer, no musical Os Saltimbancos. Eu adorava a mĂºsica dos gatos, mas eu nem sabia que era dele. O nome "Chico Buarque" eu li aos 9 anos, numa partitura. Eu jĂ¡ fazia aulas de piano desde os 7, mas me entediava com os exercĂcios que...